quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dos rios

ou “Like a bridge over troubled water”*

Era bem cedo. As ruas descendendo e serpenteando como um rio. De paralelepípedos. Era tão claro que nem parecia tal hora da manhã. Chamam esse lugar de Rio de Janeiro.

O mar passou por cerca de uma e meia pelos meus olhos, chegando até a fazê-los fechar para a boca sorrir. Ao chegar ao fim da linha, avistei o caminho que levava ao infinito, ao sem limite. Não era o fim. Apesar do sol - um pouco padrasto, um pouco pai – e das pedras – um pouco mãe, sussurrando cuidado, um pouco traiçoeira, esperando o passo em falso, nessa certeza dura de sol e pedras traçando firmemente suas fronteiras, tocavam-me as retinas o azul, o verde e o areia: entrelaçando-se sem traços, os tons comprovavam o inesperado, o sublime perene que apequenou minha alma diante de tal grandeza. E ao apequenar-me, senti a plenitude do feto ligado ao cordão umbilical, que tem tudo. Religar.

Entretanto, como em todo momento de epifania há a ruptura de um desconhecimento. Uma inocência se quebra, uma leve melancolia emerge. E tudo me atravessa. Muda. Até a pedra que enfrenta o mar, feia e áspera, até o sol que, soberano, não se permite olhar nos olhos. Mudam. Atravessam. Entrecruzam-se. Tudo é rio.

Assim conta-me o vento fresco e brando, acariciando-me a pele, enquanto selvagem penteia meus cabelos à sua maneira. Malandro e sábio ele me diz: - Não há margens.

(Mas nessa vida, nesse rio, em que tudo é travessia, eu não quero passar)

*música de Simon and Garfunkel

terça-feira, 12 de abril de 2011

Das permanências

ou "Das coisas suspensas"
ou ainda, “Cuando te pones cursi es irresistible”*

Hoje não vou te escrever. Não te enviarei mensagens de boa noite, não telefonarei. Não vou pensar e nem falar em você. Vou permanecer. Permanecerei neste lugar vazio, neste ambiente suspenso (cheio de nada, cheio de tudo): pleno, ajeno. Não estarei nem em você e nem mim. Estarei nesta terceira via, neste lugar que criamos (ou que nos criou?), de onde surgem, de onde surgimos (emergimos?) irresistíveis, indeléveis, inimagináveis, impossíveis.

(terceiro sinal, as luzes se acendem e a música começa)

Cruzam-se as mãos, fundem-se os olhares, cai a chuva. No se lo puede nombrar, pero lo podemos vivir. Vivemos. Neste cenário invisível que só os sentidos podem captar. Não vou descrever, não vou relembrar. Quero permanecer nesta captura, no recorte poético que escolhemos (ou que nos coube?) fundar. Cursi. E por isso somos e estamos.

Assim te rio gostoso despida de qualquer instância: 
 -O trovão é forte. O ar é pouco. 

*Do filme "Nueces para el amor".