quarta-feira, 26 de maio de 2010

Eu leio quadrinhos - Minha história com as HQs


Um tempo atrás conheci um cartunista no Blog dos Quadrinhos. Trocamos alguns e-mails, os contatos do MSN e Orkut e assim nasceu uma amizade e uma admiração recíproca. Certa ver, o Flávio pediu para que eu contasse como comecei a ler quadrinhos e enviei um texto por e-mail em um tom bastante informal, descontraído e irônico. Ele publicou sem mexer no meu texto no seu blog, se quiserem conferir na primeira fonte está aqui: http://verbeat.org/blogs/222/2009/06/minha-historia-com-as-historias-em-quadrinhos.html

Agora tomo a liberdade de deixar registrado aqui também esse texto, fiz algumas correções necessárias e modifiquei certos parágrafos para encurtá-los!


Pois é..... minha história com os quadrinhos tem idas e vindas.... Minha mãe foi uma grande fã dos quadrinhos Disney. Quando se casou levou os poucos que conseguiu salvar das garras dos irmãos e da mãe (que jogaram praticamente toda a coleção fora quando ela e meu pai ainda estavam na lua de mel) para casa. Mas até eu nascer eles já eram... Sou a segunda filha de uma ninhada de quatro!
Meus pais sempre gostaram de ler, convivi entre livros e revistas. Meu pai desenhava, trabalhava como um designer hoje: estampava tapetes, painéis, galerias de cortina... Coisas que muita gente nem sabe que existe... Estão fora de moda! Ele trabalhava para duas empresas também já extintas, a Chic e a Jô Tapetes, participou de muitas UDs, a feira de Utilidades Domésticas que ocorre sempre no Anhembi. Em uma das edições dessa tal feira ele conheceu o Maurício de Sousa que o convidou para trabalhar, mas meu pai recusou porque na época era a vez do Snoopy e sua turma dominarem o mercado infantil, nem se falava em Turma da Mônica, eles tinham um aspecto meio monstrengo ainda. Mas o conteúdo já era muito bom, tá aí “As tiras clássicas da Turma da Mônica” que não me deixa mentir. Nenhuma mãe queria ver estampado em um painel de lona a cara estranha da Mônica, Cebolinha... E hoje olha só! Salve Maurício!
Estava tudo indo muito bem nos negócios do meu pai até que um tio o convidou para administrar uma fazenda no interior de SP, fomos para Cachoeira Paulista, Vale do Paraíba, quase chegando no RJ! Terra de Lobisomem, Curupira, Saci-Pererê... nada de HQ! Era o fim do mundo, minha mãe, amante fanática de Sampa, quase pirou no início, mas depois se acostumou com a vida selvagem e hoje nutre um saudosismo cego por esse tempo, vai entender, Freud deve explicar... Voltemos...
Lá eu estava protegida de todo mal que a civilização moderna poderia me oferecer: TV e videogame (Master System, Atari), meus primos já tinham esses ancestrais do Play Station!
A TV não pegava, só com uma super antena parabólica, pois a fazenda fica em uma região muito baixa, foram muitas tentativas, mas meu pai acabou desencanando... Nosso contato com o mundo se dava por meio da Voz do Brasil e quando meu tio ia nos finais de semana nos visitar, ele levava os jornais antigos que assinava, Folha de São Paulo e Estadão. Foram acumulando pilhas e pilhas deles... Eu levava para a escola rural que estudei, muito carente de recursos, nós usávamos para recortar palavras, na época eu já lia as tiras, muitas não entendia, mas só aquele formato já me fascinava!
Com o tempo, meu tio trazia junto com os jornais tudo o que eles consideravam lixo: livros do ano anterior dos meus primos, revistas e finalmente quadrinhos, muito super-heróis e Disney! Eu lia tudo o que me vinha às mãos e o material sempre se renovava, pois meus primos consumiam muito, algumas revistas vinham na embalagem, nem tinham aberto, era o auge dos álbuns de figurinha também!! Meu passa tempo, principalmente à noite quando não tinha nada pra fazer, era ler isso tudo!
Depois começou a chegar a Turma da Mônica e virou um vício até hoje....
E assim cresci, lendo o "lixo" dos outros...

Quando fui para a quinta série tivemos de nos mudar parcialmente para a cidade de Lorena, mais próxima da fazenda. A escola rural oferecia escolaridade só até a quarta série. Alugamos uma casa e ficávamos ali durante a semana, nos finais de semana íamos para o mato!
A cidade tinha uma biblioteca muito boa, melhor que a biblioteca municipal daqui de São Caetano do Sul hoje. Tinha um acervo de gibis muito bacana, eu ia toda semana, podia levar pra casa, assim dividia minhas leituras entre a série Vaga-Lume (li quase tudo), as leituras obrigatórias da escola e gibis.
Mas a melhor coisa de morar na cidade foi poder comprar material novo, ter o prazer de entrar na única banca da cidade e folhear as revistas novas, escolher a que eu queria comprar. Eu não podia me dar ao luxo de comprar muitas, não tínhamos uma vida folgada financeiramente, por isso eu dava muito valor no que eu adquiria, mais pelo valor simbólico, meu pai havia ralado um bocado para que eu pudesse ter aquele material.
Levar Turma da Mônica pra escola era como levar maconha hoje, mas éramos corajosos e trocávamos no intervalo! Acho que todo mundo que curte Hq fez isso um dia!!
E assim terminei o Ensino Fundamental. Fiz vestibulinho para entrar em uma escola específica de magistério que tinha em todo o Estado de SP, o CEFAM. Como em Lorena não tinha, fui estudar em Guaratinguetá, cidade vizinha.
O semestre acabou e eu descobri que meu tio estava vendendo a fazenda, criar gado leiteiro não dava o lucro que ele queria ter, a fazenda era auto sustentável, mas pra ele não estava bom...
Voltamos pra São Paulo, mais precisamente pra São Caetano do Sul e fui transferida para o CEFAM de São Bernardo do Campo.
A qualidade do ensino dos CEFAMs era excelente, tive professores maravilhosos, se não fossem as suas críticas infundadas às HQs seriam ainda melhores!! Muitas discussões eram voltadas à questão da leitura, os quadrinhos eram vistos como uma praga pelos professores e eu como uma leitora ficava me perguntando se de fato eram mesmo, afinal, a mim não tinham prejudicado, mas eu estava ainda longe de conseguir defendê-los... lia em silêncio, às escondidas! No terceiro ano descobri que a mãe de uma colega de classe trabalhava no Diário do Grande ABC e por conta de um convênio assinava a Turma da Mônica, nas horas do almoço, pois estudava em período integral (das 7:00h às 18:00h), líamos muito a turminha, quase a sala toda compartilhava de um silêncio que só era rompido com uma gargalhada ou às vezes com um sorriso mais tímido.... Era bem legal... Os professores quando viam criticavam, perguntavam se estávamos lendo o que eles haviam mandado para estarmos desperdiçando tempo... E foi assim também no quarto ano, pois a Bruna estudava comigo novamente.
Formei-me em 2000, fui dar aula para Educação Infantil onde os quadrinhos são bem vindos, mas não existe nenhum trabalho específico com eles, as crianças pegam na biblioteca o que mais chama a atenção, pois nem sabem ler!
Parei de dar aula, pois não estava conseguindo pagar cursinho com o que ganhava e fui trabalhar em uma fábrica de bijouterias aqui em São Caetano.
No Singular conheci o Paulo Ramos, era meu professor de gramática, algumas vezes eu chegava mais cedo e o via lendo quadrinhos, mas o foco era passar na FUVEST e o pouco tempo livre que tinha eu precisava dividir entre namorado e livros de "verdadeira literatura". Isso foi em 2002.
Entrei na USP em 2003 e ali comecei a ter contato com leitores de HQs, sobretudo nos ônibus, as famosas linhas que nos levam para dentro da Cidade Universitária estão repletas de leitores de quadrinhos, muito mangá, Sandman... Foi ali que comecei a migrar para os álbuns adultos. Descobri que a nossa biblioteca tinha um pequeno acervo e o Orkut me mostrava que alguns dos meus amigos também gostavam do gênero, benditas comunidades em comum! Então eu pegava muito álbum emprestado, estava descobrindo esse mundo...
Em 2006 o Paulo criou o Blog e ali comecei a me informar mais sobre esse universo! Já conhecia os outros sites também, mas as resenhas do Paulo são fundamentais para que eu decida se comprarei ou não o álbum. Acho o trabalho dele muito bom e imparcial, ele aponta “defeitos” e qualidades, vou lá, vejo com meus próprios olhos e decido pelo sim ou pelo não!
Esse é meu atual estágio na evolução, consumidora de quadrinhos! Adoro as tiras, as cômicas, sobretudo!
Também gosto dessas séries mais inocentes, que satisfazem o gosto das meninas, Bone, Os pequenos guardiões, Tintim... Não curto mangá, não sei, nenhum enredo me pegou por enquanto!
Leio Fábulas também e gosto do Moore... Na USP vou às reuniões do Observatório de Quadrinhos que acontecem uma vez por mês, muito boas!

Enfim, entrei na onda e não sairei mais!

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O Flávio também fez uma ilustração que me representa quando era pequena com base em uma foto que enviei pra ele que tomo a liberdade de reproduzir aqui.

terça-feira, 25 de maio de 2010

FOGO!


Quero fazer um diálogo com a postagem da minha amiga Robertha. Quando criança eu também gostava de ouvir histórias como qualquer ser humano saudável! E esse gosto permanece muito vivo em mim. Na fazenda não tínhamos televisão, então nosso único contato com a civilização se fazia através de um aparelho de som. Bastante moderno até para a época, tocava fita, disco e sintonizávamos as poucas rádios AM e FM que pegavam dada a distância da cidade mais próxima, Lorena, a 30 Km. Meu pai ouvia a Voz do Brasil e depois podíamos ouvir o que quiséssemos. Minha infância foi embalada como a de qualquer criança nascida nos anos 80: Menudo, Xuxa, Dominó, Michael Jackson, trilhas sonoras das novelas da Globo, Roberto Carlos por influência materna e claro, muita música sertaneja que aprendemos a ouvir e com o tempo a gostar por ser um ritmo de preferência local, não havia como fugir. Eu não estava muito preocupada com que ouvia nesse momento, na verdade eu esperava a hora em que minha irmã mais velha e os adultos da casa desocupassem o território para que eu pudesse ouvir uma coletânea de discos de histórias infantis que tenho até hoje. Eu ouvia um após o outro todos os dias, mas os preferidos eram Chapeuzinho Vermelho e o Patinho Feio, cujas narrações eu decorei e elas ocupam uma parte tão sedimentada da minha memória que sou capaz de contá-las como estão no disco ainda hoje!
Meu pai e minha mãe também me contavam histórias ou as liam pra mim, mas depois de alfabetizada me virava sozinha.
Eu tinha muitos livros infantis ganhados de um casal de tios que eram os proprietários da fazenda, também lia muito quadrinho (esse gênero ganhará uma postagem especial).
Eu estudei em uma escola rural, mas havia feito pré-escola em São Caetano durante uns 6 meses. Em 1989, quando eu cursava a primeira série em uma sala que funcionava ao mesmo tempo a primeira e a segunda série com uns 10 colegas apenas, eu fui alfabetizada em 40 dias, contam meus pais com muito orgulho. Já tentei lhes explicar que não há mérito nenhum meu nesse processo, mas não quero entrar nessa abordagem pedagógica agora. Eu me lembro com riqueza de detalhes como foi que aconteceu o reconhecimento desse código escrito e como essas letrinhas passaram a fazer sentido pra mim. A professora (Ângela o nome dela) pediu para que pegássemos um livro pra levar pra casa. Eu escolhia pela capa e pelas ilustrações, mas ao pegar um livro da capa meio amarelada com uns bichos que olhavam para o céu pude ler e entender o título: Fogo no céu. Pronto, estava feito, aquele fogo da capa e do título incendiou também meu coração e minha mente.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Eu confesso!!!

Bom, faz muito tempo que não apareço por aqui e sou obrigada a concordar com minha amiga e parceira de escrita desse blog, a Ana. Eu confesso, eu sou dependende do FarmVille. Começou por acaso, só para que meus amigos tivessem mais vizinhos e para me distrair um pouco.... entre bées, mús e cococós eu me vi depois em uma pequena chácara que já tinha até mesmo uma casinha, depois um modesto castelo, muitas árvores e agora mais recentemente um cachorro. Eu sabia, não foi por falta de aviso, já tinham me dito que era viciante, mas não pude evitar. Nas horas que me dedico ao meu pequeno latifúndio eu me deleito de emoção, cada bichinho adotado, cada conquista, cada farmhands encontrada é um brilhinho a mais nos meus olhos! Sou eu mesma ali a pilotar os tratores (e olha que na aqui na vida real nem dirijo), a colher os produtos gerados pelos animais, a adubar, plantar e colher. E que tristeza quando uma plantação morre. Meu cachorro fugiu 4 vezes e gastei quase todo o meu FV cash para recuperá-lo, nunca fui muito amante dos animais domésticos, pois prefiro os maiores como os cavalos, mas que aperto no coração quando eu recebia o aviso de que deveria resgatá-lo. Quantos torpedos enviados ao meu irmão para que ele entrasse na minha fazenda e cuidasse dela quando eu não pudia...
Toda essa alegria de brincar de fazendeira tem na verdade uma forte ligação com meu passado que renderia (e renderá) algumas postagens. Eu morei 13 anos em uma fazenda e embora a vida no campo não seja tão romântica como é no FarmVille ali no jogo vivenciamos sim situações semelhantes e emoções muito parecidas também. Palavras de quem já sentiu o cheirinho do bezerrinho instantes depois dele nascer, bebeu o leite tirado direto da teta da vaca e pegou ovos recém botados dos ninhos de galinhas e patas!
Estou na fase 35 do jogo que até agora vai até a 70. Inventarão outras ferramentas para que eu não pare de jogar e nem tenho vontade, é de fato, prazeroso!
Faço uma advertência, não comecem, a experiência é perigosa!
Só não quero mais me ausentar assim do blog ou então postar tão tarde como estou fazendo agora, meu texto deve estar cheio de erros...
Boa noite, ou bom dia sei lá...

sábado, 8 de maio de 2010

Dos determinantes

...ou Das memórias primeiras

Todas as noites, desde de muito pequena, ouvia atenta aos contos infantis que minha mãe lia para mim. À diferença da maior parte das crianças, as histórias me despertavam ao invés de me fazer dormir. Pedia que minha mãe lesse novamente, que lesse outra, que lesse uma das minhas favoritas...e o sono nunca vinha após ouví-las. Gostava da trama, do ritmo das palavras e de vê-las escritas. Segundo minha mãe, aos três anos eu já era capaz de ler algumas sílabas. Porém, a história que ela nunca precisou me contar foi a do dia em que li minha primeira frase. E foi num livro. Essa memória ainda tenho muito viva.

Era noite, estava à mesa na cozinha perto da hora de dormir, enquanto minha mãe arrumava algo por ali. O livro se chamava "Pingo de Fogo". Tinha formato de um animalzinho vermelho e contava a história dele. Mesmo sem saber ler, gostava de folhear livros, amá-los com esse amor táctil*. Em dado momento, consegui ler uma frase. Uma frase! Não lembro do seu conteúdo, mas tenho muito presente a sensação daquele instante.

Foi como se algo houvesse se expandido dentro de mim, creio que algo semelhante com o que ocorre quando da expansão dos pulmões ao nascer. Na verdade, era tudo que se agrandava: meus olhos, meus pulmões, braços, pernas, meu mundo. De certa forma, que só hoje compreendo, entendi a dimensão daquele fato, que havia cruzado um caminho e que este caminho me atravessara. Transpus um território e este território transcreveu em mim a primeira grande marca da experiência. Jamais voltaria ao tempo das sílabas desconexas. E isso para mim significou o mundo.
Corri para perguntar à minha mãe se minha leitura estava correta. Estava. Não havia dúvidas.
Caminhei com a precisão, a leveza e a poesia do andar de bailarina, carregando o pequeno livro nas pequenas mãos. Elas que agora eram grandes o suficiente para apanhar o universo. Eu tinha cinco anos.


*Referência à música "Livros", de Caetano Veloso.