
Um tempo atrás conheci um cartunista no Blog dos Quadrinhos. Trocamos alguns e-mails, os contatos do MSN e Orkut e assim nasceu uma amizade e uma admiração recíproca. Certa ver, o Flávio pediu para que eu contasse como comecei a ler quadrinhos e enviei um texto por e-mail em um tom bastante informal, descontraído e irônico. Ele publicou sem mexer no meu texto no seu blog, se quiserem conferir na primeira fonte está aqui: http://verbeat.org/blogs/222/2009/06/minha-historia-com-as-historias-em-quadrinhos.html
Agora tomo a liberdade de deixar registrado aqui também esse texto, fiz algumas correções necessárias e modifiquei certos parágrafos para encurtá-los!
Pois é..... minha história com os quadrinhos tem idas e vindas.... Minha mãe foi uma grande fã dos quadrinhos Disney. Quando se casou levou os poucos que conseguiu salvar das garras dos irmãos e da mãe (que jogaram praticamente toda a coleção fora quando ela e meu pai ainda estavam na lua de mel) para casa. Mas até eu nascer eles já eram... Sou a segunda filha de uma ninhada de quatro!
Meus pais sempre gostaram de ler, convivi entre livros e revistas. Meu pai desenhava, trabalhava como um designer hoje: estampava tapetes, painéis, galerias de cortina... Coisas que muita gente nem sabe que existe... Estão fora de moda! Ele trabalhava para duas empresas também já extintas, a Chic e a Jô Tapetes, participou de muitas UDs, a feira de Utilidades Domésticas que ocorre sempre no Anhembi. Em uma das edições dessa tal feira ele conheceu o Maurício de Sousa que o convidou para trabalhar, mas meu pai recusou porque na época era a vez do Snoopy e sua turma dominarem o mercado infantil, nem se falava em Turma da Mônica, eles tinham um aspecto meio monstrengo ainda. Mas o conteúdo já era muito bom, tá aí “As tiras clássicas da Turma da Mônica” que não me deixa mentir. Nenhuma mãe queria ver estampado em um painel de lona a cara estranha da Mônica, Cebolinha... E hoje olha só! Salve Maurício!
Estava tudo indo muito bem nos negócios do meu pai até que um tio o convidou para administrar uma fazenda no interior de SP, fomos para Cachoeira Paulista, Vale do Paraíba, quase chegando no RJ! Terra de Lobisomem, Curupira, Saci-Pererê... nada de HQ! Era o fim do mundo, minha mãe, amante fanática de Sampa, quase pirou no início, mas depois se acostumou com a vida selvagem e hoje nutre um saudosismo cego por esse tempo, vai entender, Freud deve explicar... Voltemos...
Lá eu estava protegida de todo mal que a civilização moderna poderia me oferecer: TV e videogame (Master System, Atari), meus primos já tinham esses ancestrais do Play Station!
A TV não pegava, só com uma super antena parabólica, pois a fazenda fica em uma região muito baixa, foram muitas tentativas, mas meu pai acabou desencanando... Nosso contato com o mundo se dava por meio da Voz do Brasil e quando meu tio ia nos finais de semana nos visitar, ele levava os jornais antigos que assinava, Folha de São Paulo e Estadão. Foram acumulando pilhas e pilhas deles... Eu levava para a escola rural que estudei, muito carente de recursos, nós usávamos para recortar palavras, na época eu já lia as tiras, muitas não entendia, mas só aquele formato já me fascinava!
Com o tempo, meu tio trazia junto com os jornais tudo o que eles consideravam lixo: livros do ano anterior dos meus primos, revistas e finalmente quadrinhos, muito super-heróis e Disney! Eu lia tudo o que me vinha às mãos e o material sempre se renovava, pois meus primos consumiam muito, algumas revistas vinham na embalagem, nem tinham aberto, era o auge dos álbuns de figurinha também!! Meu passa tempo, principalmente à noite quando não tinha nada pra fazer, era ler isso tudo!
Depois começou a chegar a Turma da Mônica e virou um vício até hoje....
E assim cresci, lendo o "lixo" dos outros...
Quando fui para a quinta série tivemos de nos mudar parcialmente para a cidade de Lorena, mais próxima da fazenda. A escola rural oferecia escolaridade só até a quarta série. Alugamos uma casa e ficávamos ali durante a semana, nos finais de semana íamos para o mato!
A cidade tinha uma biblioteca muito boa, melhor que a biblioteca municipal daqui de São Caetano do Sul hoje. Tinha um acervo de gibis muito bacana, eu ia toda semana, podia levar pra casa, assim dividia minhas leituras entre a série Vaga-Lume (li quase tudo), as leituras obrigatórias da escola e gibis.
Mas a melhor coisa de morar na cidade foi poder comprar material novo, ter o prazer de entrar na única banca da cidade e folhear as revistas novas, escolher a que eu queria comprar. Eu não podia me dar ao luxo de comprar muitas, não tínhamos uma vida folgada financeiramente, por isso eu dava muito valor no que eu adquiria, mais pelo valor simbólico, meu pai havia ralado um bocado para que eu pudesse ter aquele material.
Levar Turma da Mônica pra escola era como levar maconha hoje, mas éramos corajosos e trocávamos no intervalo! Acho que todo mundo que curte Hq fez isso um dia!!
E assim terminei o Ensino Fundamental. Fiz vestibulinho para entrar em uma escola específica de magistério que tinha em todo o Estado de SP, o CEFAM. Como em Lorena não tinha, fui estudar em Guaratinguetá, cidade vizinha.
O semestre acabou e eu descobri que meu tio estava vendendo a fazenda, criar gado leiteiro não dava o lucro que ele queria ter, a fazenda era auto sustentável, mas pra ele não estava bom...
Voltamos pra São Paulo, mais precisamente pra São Caetano do Sul e fui transferida para o CEFAM de São Bernardo do Campo.
A qualidade do ensino dos CEFAMs era excelente, tive professores maravilhosos, se não fossem as suas críticas infundadas às HQs seriam ainda melhores!! Muitas discussões eram voltadas à questão da leitura, os quadrinhos eram vistos como uma praga pelos professores e eu como uma leitora ficava me perguntando se de fato eram mesmo, afinal, a mim não tinham prejudicado, mas eu estava ainda longe de conseguir defendê-los... lia em silêncio, às escondidas! No terceiro ano descobri que a mãe de uma colega de classe trabalhava no Diário do Grande ABC e por conta de um convênio assinava a Turma da Mônica, nas horas do almoço, pois estudava em período integral (das 7:00h às 18:00h), líamos muito a turminha, quase a sala toda compartilhava de um silêncio que só era rompido com uma gargalhada ou às vezes com um sorriso mais tímido.... Era bem legal... Os professores quando viam criticavam, perguntavam se estávamos lendo o que eles haviam mandado para estarmos desperdiçando tempo... E foi assim também no quarto ano, pois a Bruna estudava comigo novamente.
Formei-me em 2000, fui dar aula para Educação Infantil onde os quadrinhos são bem vindos, mas não existe nenhum trabalho específico com eles, as crianças pegam na biblioteca o que mais chama a atenção, pois nem sabem ler!
Parei de dar aula, pois não estava conseguindo pagar cursinho com o que ganhava e fui trabalhar em uma fábrica de bijouterias aqui em São Caetano.
No Singular conheci o Paulo Ramos, era meu professor de gramática, algumas vezes eu chegava mais cedo e o via lendo quadrinhos, mas o foco era passar na FUVEST e o pouco tempo livre que tinha eu precisava dividir entre namorado e livros de "verdadeira literatura". Isso foi em 2002.
Entrei na USP em 2003 e ali comecei a ter contato com leitores de HQs, sobretudo nos ônibus, as famosas linhas que nos levam para dentro da Cidade Universitária estão repletas de leitores de quadrinhos, muito mangá, Sandman... Foi ali que comecei a migrar para os álbuns adultos. Descobri que a nossa biblioteca tinha um pequeno acervo e o Orkut me mostrava que alguns dos meus amigos também gostavam do gênero, benditas comunidades em comum! Então eu pegava muito álbum emprestado, estava descobrindo esse mundo...
Em 2006 o Paulo criou o Blog e ali comecei a me informar mais sobre esse universo! Já conhecia os outros sites também, mas as resenhas do Paulo são fundamentais para que eu decida se comprarei ou não o álbum. Acho o trabalho dele muito bom e imparcial, ele aponta “defeitos” e qualidades, vou lá, vejo com meus próprios olhos e decido pelo sim ou pelo não!
Esse é meu atual estágio na evolução, consumidora de quadrinhos! Adoro as tiras, as cômicas, sobretudo!
Também gosto dessas séries mais inocentes, que satisfazem o gosto das meninas, Bone, Os pequenos guardiões, Tintim... Não curto mangá, não sei, nenhum enredo me pegou por enquanto!
Leio Fábulas também e gosto do Moore... Na USP vou às reuniões do Observatório de Quadrinhos que acontecem uma vez por mês, muito boas!
Enfim, entrei na onda e não sairei mais!
Meus pais sempre gostaram de ler, convivi entre livros e revistas. Meu pai desenhava, trabalhava como um designer hoje: estampava tapetes, painéis, galerias de cortina... Coisas que muita gente nem sabe que existe... Estão fora de moda! Ele trabalhava para duas empresas também já extintas, a Chic e a Jô Tapetes, participou de muitas UDs, a feira de Utilidades Domésticas que ocorre sempre no Anhembi. Em uma das edições dessa tal feira ele conheceu o Maurício de Sousa que o convidou para trabalhar, mas meu pai recusou porque na época era a vez do Snoopy e sua turma dominarem o mercado infantil, nem se falava em Turma da Mônica, eles tinham um aspecto meio monstrengo ainda. Mas o conteúdo já era muito bom, tá aí “As tiras clássicas da Turma da Mônica” que não me deixa mentir. Nenhuma mãe queria ver estampado em um painel de lona a cara estranha da Mônica, Cebolinha... E hoje olha só! Salve Maurício!
Estava tudo indo muito bem nos negócios do meu pai até que um tio o convidou para administrar uma fazenda no interior de SP, fomos para Cachoeira Paulista, Vale do Paraíba, quase chegando no RJ! Terra de Lobisomem, Curupira, Saci-Pererê... nada de HQ! Era o fim do mundo, minha mãe, amante fanática de Sampa, quase pirou no início, mas depois se acostumou com a vida selvagem e hoje nutre um saudosismo cego por esse tempo, vai entender, Freud deve explicar... Voltemos...
Lá eu estava protegida de todo mal que a civilização moderna poderia me oferecer: TV e videogame (Master System, Atari), meus primos já tinham esses ancestrais do Play Station!
A TV não pegava, só com uma super antena parabólica, pois a fazenda fica em uma região muito baixa, foram muitas tentativas, mas meu pai acabou desencanando... Nosso contato com o mundo se dava por meio da Voz do Brasil e quando meu tio ia nos finais de semana nos visitar, ele levava os jornais antigos que assinava, Folha de São Paulo e Estadão. Foram acumulando pilhas e pilhas deles... Eu levava para a escola rural que estudei, muito carente de recursos, nós usávamos para recortar palavras, na época eu já lia as tiras, muitas não entendia, mas só aquele formato já me fascinava!
Com o tempo, meu tio trazia junto com os jornais tudo o que eles consideravam lixo: livros do ano anterior dos meus primos, revistas e finalmente quadrinhos, muito super-heróis e Disney! Eu lia tudo o que me vinha às mãos e o material sempre se renovava, pois meus primos consumiam muito, algumas revistas vinham na embalagem, nem tinham aberto, era o auge dos álbuns de figurinha também!! Meu passa tempo, principalmente à noite quando não tinha nada pra fazer, era ler isso tudo!
Depois começou a chegar a Turma da Mônica e virou um vício até hoje....
E assim cresci, lendo o "lixo" dos outros...
Quando fui para a quinta série tivemos de nos mudar parcialmente para a cidade de Lorena, mais próxima da fazenda. A escola rural oferecia escolaridade só até a quarta série. Alugamos uma casa e ficávamos ali durante a semana, nos finais de semana íamos para o mato!
A cidade tinha uma biblioteca muito boa, melhor que a biblioteca municipal daqui de São Caetano do Sul hoje. Tinha um acervo de gibis muito bacana, eu ia toda semana, podia levar pra casa, assim dividia minhas leituras entre a série Vaga-Lume (li quase tudo), as leituras obrigatórias da escola e gibis.
Mas a melhor coisa de morar na cidade foi poder comprar material novo, ter o prazer de entrar na única banca da cidade e folhear as revistas novas, escolher a que eu queria comprar. Eu não podia me dar ao luxo de comprar muitas, não tínhamos uma vida folgada financeiramente, por isso eu dava muito valor no que eu adquiria, mais pelo valor simbólico, meu pai havia ralado um bocado para que eu pudesse ter aquele material.
Levar Turma da Mônica pra escola era como levar maconha hoje, mas éramos corajosos e trocávamos no intervalo! Acho que todo mundo que curte Hq fez isso um dia!!
E assim terminei o Ensino Fundamental. Fiz vestibulinho para entrar em uma escola específica de magistério que tinha em todo o Estado de SP, o CEFAM. Como em Lorena não tinha, fui estudar em Guaratinguetá, cidade vizinha.
O semestre acabou e eu descobri que meu tio estava vendendo a fazenda, criar gado leiteiro não dava o lucro que ele queria ter, a fazenda era auto sustentável, mas pra ele não estava bom...
Voltamos pra São Paulo, mais precisamente pra São Caetano do Sul e fui transferida para o CEFAM de São Bernardo do Campo.
A qualidade do ensino dos CEFAMs era excelente, tive professores maravilhosos, se não fossem as suas críticas infundadas às HQs seriam ainda melhores!! Muitas discussões eram voltadas à questão da leitura, os quadrinhos eram vistos como uma praga pelos professores e eu como uma leitora ficava me perguntando se de fato eram mesmo, afinal, a mim não tinham prejudicado, mas eu estava ainda longe de conseguir defendê-los... lia em silêncio, às escondidas! No terceiro ano descobri que a mãe de uma colega de classe trabalhava no Diário do Grande ABC e por conta de um convênio assinava a Turma da Mônica, nas horas do almoço, pois estudava em período integral (das 7:00h às 18:00h), líamos muito a turminha, quase a sala toda compartilhava de um silêncio que só era rompido com uma gargalhada ou às vezes com um sorriso mais tímido.... Era bem legal... Os professores quando viam criticavam, perguntavam se estávamos lendo o que eles haviam mandado para estarmos desperdiçando tempo... E foi assim também no quarto ano, pois a Bruna estudava comigo novamente.
Formei-me em 2000, fui dar aula para Educação Infantil onde os quadrinhos são bem vindos, mas não existe nenhum trabalho específico com eles, as crianças pegam na biblioteca o que mais chama a atenção, pois nem sabem ler!
Parei de dar aula, pois não estava conseguindo pagar cursinho com o que ganhava e fui trabalhar em uma fábrica de bijouterias aqui em São Caetano.
No Singular conheci o Paulo Ramos, era meu professor de gramática, algumas vezes eu chegava mais cedo e o via lendo quadrinhos, mas o foco era passar na FUVEST e o pouco tempo livre que tinha eu precisava dividir entre namorado e livros de "verdadeira literatura". Isso foi em 2002.
Entrei na USP em 2003 e ali comecei a ter contato com leitores de HQs, sobretudo nos ônibus, as famosas linhas que nos levam para dentro da Cidade Universitária estão repletas de leitores de quadrinhos, muito mangá, Sandman... Foi ali que comecei a migrar para os álbuns adultos. Descobri que a nossa biblioteca tinha um pequeno acervo e o Orkut me mostrava que alguns dos meus amigos também gostavam do gênero, benditas comunidades em comum! Então eu pegava muito álbum emprestado, estava descobrindo esse mundo...
Em 2006 o Paulo criou o Blog e ali comecei a me informar mais sobre esse universo! Já conhecia os outros sites também, mas as resenhas do Paulo são fundamentais para que eu decida se comprarei ou não o álbum. Acho o trabalho dele muito bom e imparcial, ele aponta “defeitos” e qualidades, vou lá, vejo com meus próprios olhos e decido pelo sim ou pelo não!
Esse é meu atual estágio na evolução, consumidora de quadrinhos! Adoro as tiras, as cômicas, sobretudo!
Também gosto dessas séries mais inocentes, que satisfazem o gosto das meninas, Bone, Os pequenos guardiões, Tintim... Não curto mangá, não sei, nenhum enredo me pegou por enquanto!
Leio Fábulas também e gosto do Moore... Na USP vou às reuniões do Observatório de Quadrinhos que acontecem uma vez por mês, muito boas!
Enfim, entrei na onda e não sairei mais!
____________________________________________________________
O Flávio também fez uma ilustração que me representa quando era pequena com base em uma foto que enviei pra ele que tomo a liberdade de reproduzir aqui.
