sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Das viagens

Viajar é das melhores coisas a se fazer. Deslocar-se a lugares novos, levar nosso olhar estrangeiro a novas paisagens, provar novos sabores, ser um pouco como o outro desconhecido. Estou prestes a fazê-lo e ansiosa por isso. Mas é sobre outro tipo viagem que quero falar: das viagens aos lugares que não conhecemos em nós mesmos e de como renascemos (ou terminamos de nascer) por conta delas. Sou uma tia em gestação e esta viagem já começou.

Pensava que me tornaria tia no momento em que o visse fora da barriga e, mais ainda, quando o carregasse pela primeira vez. Mas com seu pequenino tamanho ele foi me provando o contrário. A cada centímetro que cresce, a cada grama que ganha, a cada dedinho que desponta - e que agora já se movem todos - o dia brilha mais, fica mais bonito, o mundo muda. Não há lógica nessa proporção entre o espaço físico que ocupa - ainda tão guardadinho na barriga – e o tamanho da sua presença. Ele ainda nem sabe, mas já nos moveu e nos deslocou de uma forma que nenhum de nós já fez ou imaginou ser possível, de uma maneira que nenhuma outra viagem é capaz de fazer. Junto com ele, somos todos embriões e estamos todos esperando pelo seu nascimento e pelo nosso também.

O parto sempre faz nascer muito além de uma pessoa. Minha irmã dará à luz ao seu filho e fará nascer com ele a mãe, o pai, os avós, as tias e tios. Ela dará à luz a um mundo inteiro que está em gestação pela diminuta presença grandiosa de alguém que já ressignificou quem somos e como será a nossa vida dali em diante: ele se chama Felipe.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

De lo que no sé

o "Das profundidades"

Tras haber imaginado lo que vendría, de intentar huir, me encuentro atrapada entre el tiempo que se me ha escapado y el tiempo que no quiero encontrar. Aplastada, sin moverme, sin aliento. Un animal sometido y sorprendido por la trampa cruel en que se ha puesto a si mismo.

¿Por qué? No lo sé.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Das (não) batidas do coração

ou "My heart missed a beat"

Não lembro mais quando foi a primeira vez, mas creio que já fazem mais de dez anos. Meados da adolescência, provavelmente. 
Uma pontada, um ar que falta, um ar que volta, o coração acelera. 
Essa sequência de quatro tempos acontecia uma vez, no máximo duas vezes por ano. Tornou-se habitual. Quando acontecia, pensava "Já aconteceu este ano. Agora, só no próximo". Era certo. E era discreto. Silencioso. Na maioria das vezes aconteceu quando eu estava sozinha ou, quando em público, a atenção não estava centrada em mim. Quatro tempos de pausa, quatro tempos para o coração desacelerar, uma respirada profunda e era como se nada tivesse me acontecido. O mundo ao redor não parava. Era uma pausa dentro, que só eu sentia. 

Este ano foi diferente. Estava acompanhada e foi menos discreto. 
Uma pontada funda, um ar que falta, um ar que falta, um ar que falta...Um ar que volta difícil, o coração acelera muito. 
Ele viu e foi difícil fechar os olhos. Foi muito visível, na verdade. Perdi o fôlego, perdi a batida. Nem diástole, nem sístole: o coração esqueceu por um segundo de pulsar. Ou então perdeu o ritmo. Diástole puxou de um lado, sístole tentou do outro e nessa falta de harmonia, nenhuma das duas conseguiu fazer seu som. E esse erro poderia ter sido fatal. Desarmonia é sempre fatal. Aprendera desde criança nas aulas de dança...

O ano ainda está na metade e mais uma vez, aconteceu a sequência. Apresentando variações, como não poderia deixar de ser neste ano tão atípico (por tantos motivos que talvez eu não tenha mesmo passos para acompanhar tal ritmo).
Pontada, pontada, pontada, um ar que falta, um ar que falta, o coração acelera e uma dor fica. Desce pela costas e costelas, fica no peito, dói o ombro, o estômago enjoa, um medo que surge. 
Ele viu novamente. Assustou, encheu os olhos d'água. Teve medo. Tive medo. Segurou a minha mão. Entendeu o meu choro.

Este seria aquele parágrafo em que eu revelaria a metáfora, que é o que tudo isso poderia ter sido. São muito bonitas - apesar de clichês - essas figuras de linguagem que falam de como a vida é plena quando perdemos o ar, quando o coração acelera...Até mesmo aquelas em que a tristeza é descrita como uma dor pungente no peito, daquelas do tipo Elis Regina. Porém, hoje não tem poesia. Hoje o que tem é medo de acordar amanhã e ligar para o médico para agendar consulta. 

Mas fiz promessa, olhando nos olhos. Não se falta com uma promessa. Ainda que me falte a batida.




quarta-feira, 27 de abril de 2011

Dos rios

ou “Like a bridge over troubled water”*

Era bem cedo. As ruas descendendo e serpenteando como um rio. De paralelepípedos. Era tão claro que nem parecia tal hora da manhã. Chamam esse lugar de Rio de Janeiro.

O mar passou por cerca de uma e meia pelos meus olhos, chegando até a fazê-los fechar para a boca sorrir. Ao chegar ao fim da linha, avistei o caminho que levava ao infinito, ao sem limite. Não era o fim. Apesar do sol - um pouco padrasto, um pouco pai – e das pedras – um pouco mãe, sussurrando cuidado, um pouco traiçoeira, esperando o passo em falso, nessa certeza dura de sol e pedras traçando firmemente suas fronteiras, tocavam-me as retinas o azul, o verde e o areia: entrelaçando-se sem traços, os tons comprovavam o inesperado, o sublime perene que apequenou minha alma diante de tal grandeza. E ao apequenar-me, senti a plenitude do feto ligado ao cordão umbilical, que tem tudo. Religar.

Entretanto, como em todo momento de epifania há a ruptura de um desconhecimento. Uma inocência se quebra, uma leve melancolia emerge. E tudo me atravessa. Muda. Até a pedra que enfrenta o mar, feia e áspera, até o sol que, soberano, não se permite olhar nos olhos. Mudam. Atravessam. Entrecruzam-se. Tudo é rio.

Assim conta-me o vento fresco e brando, acariciando-me a pele, enquanto selvagem penteia meus cabelos à sua maneira. Malandro e sábio ele me diz: - Não há margens.

(Mas nessa vida, nesse rio, em que tudo é travessia, eu não quero passar)

*música de Simon and Garfunkel

terça-feira, 12 de abril de 2011

Das permanências

ou "Das coisas suspensas"
ou ainda, “Cuando te pones cursi es irresistible”*

Hoje não vou te escrever. Não te enviarei mensagens de boa noite, não telefonarei. Não vou pensar e nem falar em você. Vou permanecer. Permanecerei neste lugar vazio, neste ambiente suspenso (cheio de nada, cheio de tudo): pleno, ajeno. Não estarei nem em você e nem mim. Estarei nesta terceira via, neste lugar que criamos (ou que nos criou?), de onde surgem, de onde surgimos (emergimos?) irresistíveis, indeléveis, inimagináveis, impossíveis.

(terceiro sinal, as luzes se acendem e a música começa)

Cruzam-se as mãos, fundem-se os olhares, cai a chuva. No se lo puede nombrar, pero lo podemos vivir. Vivemos. Neste cenário invisível que só os sentidos podem captar. Não vou descrever, não vou relembrar. Quero permanecer nesta captura, no recorte poético que escolhemos (ou que nos coube?) fundar. Cursi. E por isso somos e estamos.

Assim te rio gostoso despida de qualquer instância: 
 -O trovão é forte. O ar é pouco. 

*Do filme "Nueces para el amor".

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Casa

Segundo o dicionário online Priberam o primeiro significado dado a palavra casa é este: Nome genérico de todas as construções destinadas a habitação. (http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx).
As terríveis notícias dos últimos dias me impulsionaram a escrever essa postagem que estava engavetada no meu cérebro esperando por outra data para ser publicada, mas dada as circunstâncias decidi escrevê-la.
Estou me referindo aos desastres naturais da região serrana do Rio de Janeiro e também das demais regiões atingidas pelas fortes chuvas no Brasil.
Eu lamento profundamente a perda de tantas vidas, mas para quem ficou o sofrimento apenas começou. Além de terem de lidar com a ausência dos familiares terão de superar a dor de terem perdido suas casas.
Eu não faço idéia do que é sobreviver a uma inundação ou um deslizamento, mas eu sei bem o que é ficar sem casa.
Há quase dois anos eu e minha família tivemos de desocupar nossa casa por questões judiciais que não convém detalhar, é algo muito complicado, uma história de filme dramático!
Isso não seria problema, se tivéssemos pra onde ir, mas não tínhamos! Mendigamos um lugar pra ficar pra muitos parentes e amigos, além disso, precisávamos levar nossos pertences que não eram poucos! Ouvimos muitos nãos e sins sem vontade, mas uma tia resolveu receber uma parte de nós, pois minha família é numerosa, somos em 6 adultos!
O que não queríamos aconteceu, tivemos de nos separar. Quatro de nós fomos pra casa da tal tia, a saber: meu pai, minha mãe, meu irmão e eu. Faltavam minhas duas irmãs que foram recebidas pelas famílias dos seus respectivos noivos.
Depois de oito meses aquela frase popular que diz que uma casa não pode ter duas donas começou a se mostrar muito real pra nós e principalmente pra minha mãe. A relação estava insustentável na casa da minha tia e saímos de lá. Fomos recebidos por outra tia e ali permanecemos mais 4 meses. Fazendo a soma: 1 ano sem casa! Até que em fevereiro de 2010 conseguimos alugar um imóvel e reunimos a família novamente.
Eu entendo quando as pessoas se recusam a abandonarem suas casas porque a Defesa Civil assim orienta, só quem viveu a experiência de estar na casa dos outros é que sabe o quanto é difícil você interferir na rotina de outra família e ter interferências e palpites de outras pessoas na sua vida.
Você ao mesmo tempo que enche o saco dos seus primos e tios o seu também vai sendo enchido gradualmente! Imaginemos a dificuldade que é ser recebido por estranhos, por voluntários...
O dicionário comporta um significado incompleto para essa palavra: casa. Desde que o homem teve a idéia de cercar um canto de terra e chamá-lo de "meu" as coisas se complicaram! É muito mais do que uma construção física que serve pra habitação. É a exteriorização das nossas próprias identidades, é parte constitutiva do nosso eu e por isso, perder a casa em qualquer que seja a circunstância que contrarie nossa vontade é perder uma parte de si.
Muitas de minhas memórias estão ligadas aquele local. Foi a parte que ficou, pois essa a oficial de justiça não pôde lacrar!
Sem casa o cidadão perde 50% dos seus direitos, afinal de contas se você não comprova residência fixa, salvo se você for índio ou cigano você é visto como mendigo, favelado, morador de rua... e esses rótulos vêem recheados de outros rótulos e dessa forma a sociedade nos classifica e nos arquiva no banco de dados dos estorvos sociais!
Eu me solidarizo para com essas pessoas rejeitadas socialmente e sei que foi por um milagre que não fomos parar na rua! E vejo como é fácil você chegar a condição de morador de rua, basta não ter família que estenda a mão!
Sou muito grata aos que ofereceram ajuda! Desde aqueles que puderam receber apenas nossos pertences até os mais solidários que dividiram as suas casas conosco. Mas não há nada melhor do que estar em minha casa, ainda que não seja de fato minha, mas é aqui que já imprimi e imprimo minhas marcas novamente!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Dos sentimentos regentes

...ou "Es como ver bailar a Fred Astaire: parece tan fácil".*

Algumas pessoas são governadas pelo ódio. Outras, pelo amor ou ainda, pela oscilação que os reforça mutuamente. Há os que se flagelam pela culpa e também os que tem como bússola o próprio umbigo, sem remorso ou compaixão. Eu sou regida pela vaidade, sempre ela, em todos os lugares.

Quando você me olha demoradamente eu me envaideço, pelo teu olhar de contemplação diante desse "rabbit hole" que são meus olhos. Ou quando você me chama de "meu anjo", porque ser anjo é algo muito bonito tanto na carne, quanto no espírito. Quando me pede um beijo. Quando entrelaça os seus dedos nos meus. Quando adormecido se volta para mim e me abraça, de um jeito intenso e leve. Quando rimos juntos ou quando, muito juntos, descansamos depois de nos cansarmos bastante. Sinto-me envaidecida e arrisco dizer que você sente o mesmo.

Para alguns é possível classificar tudo isso de outros modos, seguindo uma superficial (e nem por isso, não verdadeira) taxonomia dos sentimentos humanos. Não sigo estas leis e nem sei se sou capaz de fazê-lo. Contudo, dentro na minha humana necessidade nomear, chamo de vaidade o meu Norte.

(Nomear é evocar, é aproximar, é dar existência. Por isso dizer nomes é algo tão perigoso)

*Do filme "O filho da Noiva".