segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Casa

Segundo o dicionário online Priberam o primeiro significado dado a palavra casa é este: Nome genérico de todas as construções destinadas a habitação. (http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx).
As terríveis notícias dos últimos dias me impulsionaram a escrever essa postagem que estava engavetada no meu cérebro esperando por outra data para ser publicada, mas dada as circunstâncias decidi escrevê-la.
Estou me referindo aos desastres naturais da região serrana do Rio de Janeiro e também das demais regiões atingidas pelas fortes chuvas no Brasil.
Eu lamento profundamente a perda de tantas vidas, mas para quem ficou o sofrimento apenas começou. Além de terem de lidar com a ausência dos familiares terão de superar a dor de terem perdido suas casas.
Eu não faço idéia do que é sobreviver a uma inundação ou um deslizamento, mas eu sei bem o que é ficar sem casa.
Há quase dois anos eu e minha família tivemos de desocupar nossa casa por questões judiciais que não convém detalhar, é algo muito complicado, uma história de filme dramático!
Isso não seria problema, se tivéssemos pra onde ir, mas não tínhamos! Mendigamos um lugar pra ficar pra muitos parentes e amigos, além disso, precisávamos levar nossos pertences que não eram poucos! Ouvimos muitos nãos e sins sem vontade, mas uma tia resolveu receber uma parte de nós, pois minha família é numerosa, somos em 6 adultos!
O que não queríamos aconteceu, tivemos de nos separar. Quatro de nós fomos pra casa da tal tia, a saber: meu pai, minha mãe, meu irmão e eu. Faltavam minhas duas irmãs que foram recebidas pelas famílias dos seus respectivos noivos.
Depois de oito meses aquela frase popular que diz que uma casa não pode ter duas donas começou a se mostrar muito real pra nós e principalmente pra minha mãe. A relação estava insustentável na casa da minha tia e saímos de lá. Fomos recebidos por outra tia e ali permanecemos mais 4 meses. Fazendo a soma: 1 ano sem casa! Até que em fevereiro de 2010 conseguimos alugar um imóvel e reunimos a família novamente.
Eu entendo quando as pessoas se recusam a abandonarem suas casas porque a Defesa Civil assim orienta, só quem viveu a experiência de estar na casa dos outros é que sabe o quanto é difícil você interferir na rotina de outra família e ter interferências e palpites de outras pessoas na sua vida.
Você ao mesmo tempo que enche o saco dos seus primos e tios o seu também vai sendo enchido gradualmente! Imaginemos a dificuldade que é ser recebido por estranhos, por voluntários...
O dicionário comporta um significado incompleto para essa palavra: casa. Desde que o homem teve a idéia de cercar um canto de terra e chamá-lo de "meu" as coisas se complicaram! É muito mais do que uma construção física que serve pra habitação. É a exteriorização das nossas próprias identidades, é parte constitutiva do nosso eu e por isso, perder a casa em qualquer que seja a circunstância que contrarie nossa vontade é perder uma parte de si.
Muitas de minhas memórias estão ligadas aquele local. Foi a parte que ficou, pois essa a oficial de justiça não pôde lacrar!
Sem casa o cidadão perde 50% dos seus direitos, afinal de contas se você não comprova residência fixa, salvo se você for índio ou cigano você é visto como mendigo, favelado, morador de rua... e esses rótulos vêem recheados de outros rótulos e dessa forma a sociedade nos classifica e nos arquiva no banco de dados dos estorvos sociais!
Eu me solidarizo para com essas pessoas rejeitadas socialmente e sei que foi por um milagre que não fomos parar na rua! E vejo como é fácil você chegar a condição de morador de rua, basta não ter família que estenda a mão!
Sou muito grata aos que ofereceram ajuda! Desde aqueles que puderam receber apenas nossos pertences até os mais solidários que dividiram as suas casas conosco. Mas não há nada melhor do que estar em minha casa, ainda que não seja de fato minha, mas é aqui que já imprimi e imprimo minhas marcas novamente!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Dos sentimentos regentes

...ou "Es como ver bailar a Fred Astaire: parece tan fácil".*

Algumas pessoas são governadas pelo ódio. Outras, pelo amor ou ainda, pela oscilação que os reforça mutuamente. Há os que se flagelam pela culpa e também os que tem como bússola o próprio umbigo, sem remorso ou compaixão. Eu sou regida pela vaidade, sempre ela, em todos os lugares.

Quando você me olha demoradamente eu me envaideço, pelo teu olhar de contemplação diante desse "rabbit hole" que são meus olhos. Ou quando você me chama de "meu anjo", porque ser anjo é algo muito bonito tanto na carne, quanto no espírito. Quando me pede um beijo. Quando entrelaça os seus dedos nos meus. Quando adormecido se volta para mim e me abraça, de um jeito intenso e leve. Quando rimos juntos ou quando, muito juntos, descansamos depois de nos cansarmos bastante. Sinto-me envaidecida e arrisco dizer que você sente o mesmo.

Para alguns é possível classificar tudo isso de outros modos, seguindo uma superficial (e nem por isso, não verdadeira) taxonomia dos sentimentos humanos. Não sigo estas leis e nem sei se sou capaz de fazê-lo. Contudo, dentro na minha humana necessidade nomear, chamo de vaidade o meu Norte.

(Nomear é evocar, é aproximar, é dar existência. Por isso dizer nomes é algo tão perigoso)

*Do filme "O filho da Noiva".

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Um quarto só pra mim

Sou fruto de uma família numerosa e feliz! Minha relação com minhas duas irmãs e meu irmão é muito boa, somos amigos, nos ajudamos e até emprestamos dinheiro um ao outro para que vocês possam entender o nível de cumplicidade, companheirismo e bem querer.
Nessa última sexta-feira nos "despedimos" da nossa irmã caçula, a Nicole. Contrariando a lei natural da vida que diz que os mais velhos devem se casar primeiro ela deixou nossa casa e família para formar a sua. Entrou na igreja com um largo sorriso e não derramou uma lágrima sequer, essas porém, ficaram por minha conta. Acabei com a minha maquiagem, mas não pude evitar, me controlei até que não consegui conter a alegria de vê-la tão linda, feliz e realizada. Então, meus olhos foram se enchendo, enchendo... e buáaaaaaaaa... quando a abracei ela me disse com uma voz doce: "Paty, pára de chorar, está estragando toda a sua maquiagem". Eu lhe respondi que chorava de felicidade, pois tenho certeza de que ela será muito amada, respeitada e cuidada pelo meu cunhado Bruno.
Ainda não me dei conta de que não a teremos mais em casa todos os dias, pois as suas coisas ainda estão aqui. Além das coisas pessoais dela, o nosso quarto está repleto de presentes. A mudança só será feita quando ela voltar da lua de mel.
Eu sempre quis ter um quarto só pra mim, mas vejo como será dura essa conquista. É claro que eu terei a companhia da minha irmã mais velha, a Pérola, mas sentiremos saudades das conversas nas madrugadas, das risadas, das falas sonâmbulas da Ni, do cheiro do hidratante que ela usa e dos seus espirros matinais por conta da renite! Nosso time estará desfalcado.
Em agosto a Pérola também fará o mesmo caminho e de fato terei um quarto só meu.
Agora vejo que depois de muito tempo compartilhando esse espaço a identidade que criei é do "nosso quarto" e não do "meu quarto". Terei de me adaptar! E construir algo novo!