segunda-feira, 25 de julho de 2011

Das (não) batidas do coração

ou "My heart missed a beat"

Não lembro mais quando foi a primeira vez, mas creio que já fazem mais de dez anos. Meados da adolescência, provavelmente. 
Uma pontada, um ar que falta, um ar que volta, o coração acelera. 
Essa sequência de quatro tempos acontecia uma vez, no máximo duas vezes por ano. Tornou-se habitual. Quando acontecia, pensava "Já aconteceu este ano. Agora, só no próximo". Era certo. E era discreto. Silencioso. Na maioria das vezes aconteceu quando eu estava sozinha ou, quando em público, a atenção não estava centrada em mim. Quatro tempos de pausa, quatro tempos para o coração desacelerar, uma respirada profunda e era como se nada tivesse me acontecido. O mundo ao redor não parava. Era uma pausa dentro, que só eu sentia. 

Este ano foi diferente. Estava acompanhada e foi menos discreto. 
Uma pontada funda, um ar que falta, um ar que falta, um ar que falta...Um ar que volta difícil, o coração acelera muito. 
Ele viu e foi difícil fechar os olhos. Foi muito visível, na verdade. Perdi o fôlego, perdi a batida. Nem diástole, nem sístole: o coração esqueceu por um segundo de pulsar. Ou então perdeu o ritmo. Diástole puxou de um lado, sístole tentou do outro e nessa falta de harmonia, nenhuma das duas conseguiu fazer seu som. E esse erro poderia ter sido fatal. Desarmonia é sempre fatal. Aprendera desde criança nas aulas de dança...

O ano ainda está na metade e mais uma vez, aconteceu a sequência. Apresentando variações, como não poderia deixar de ser neste ano tão atípico (por tantos motivos que talvez eu não tenha mesmo passos para acompanhar tal ritmo).
Pontada, pontada, pontada, um ar que falta, um ar que falta, o coração acelera e uma dor fica. Desce pela costas e costelas, fica no peito, dói o ombro, o estômago enjoa, um medo que surge. 
Ele viu novamente. Assustou, encheu os olhos d'água. Teve medo. Tive medo. Segurou a minha mão. Entendeu o meu choro.

Este seria aquele parágrafo em que eu revelaria a metáfora, que é o que tudo isso poderia ter sido. São muito bonitas - apesar de clichês - essas figuras de linguagem que falam de como a vida é plena quando perdemos o ar, quando o coração acelera...Até mesmo aquelas em que a tristeza é descrita como uma dor pungente no peito, daquelas do tipo Elis Regina. Porém, hoje não tem poesia. Hoje o que tem é medo de acordar amanhã e ligar para o médico para agendar consulta. 

Mas fiz promessa, olhando nos olhos. Não se falta com uma promessa. Ainda que me falte a batida.