...ou Das memórias primeiras
Todas as noites, desde de muito pequena, ouvia atenta aos contos infantis que minha mãe lia para mim. À diferença da maior parte das crianças, as histórias me despertavam ao invés de me fazer dormir. Pedia que minha mãe lesse novamente, que lesse outra, que lesse uma das minhas favoritas...e o sono nunca vinha após ouví-las. Gostava da trama, do ritmo das palavras e de vê-las escritas. Segundo minha mãe, aos três anos eu já era capaz de ler algumas sílabas. Porém, a história que ela nunca precisou me contar foi a do dia em que li minha primeira frase. E foi num livro. Essa memória ainda tenho muito viva.
Era noite, estava à mesa na cozinha perto da hora de dormir, enquanto minha mãe arrumava algo por ali. O livro se chamava "Pingo de Fogo". Tinha formato de um animalzinho vermelho e contava a história dele. Mesmo sem saber ler, gostava de folhear livros, amá-los com esse amor táctil*. Em dado momento, consegui ler uma frase. Uma frase! Não lembro do seu conteúdo, mas tenho muito presente a sensação daquele instante.
Foi como se algo houvesse se expandido dentro de mim, creio que algo semelhante com o que ocorre quando da expansão dos pulmões ao nascer. Na verdade, era tudo que se agrandava: meus olhos, meus pulmões, braços, pernas, meu mundo. De certa forma, que só hoje compreendo, entendi a dimensão daquele fato, que havia cruzado um caminho e que este caminho me atravessara. Transpus um território e este território transcreveu em mim a primeira grande marca da experiência. Jamais voltaria ao tempo das sílabas desconexas. E isso para mim significou o mundo.
Corri para perguntar à minha mãe se minha leitura estava correta. Estava. Não havia dúvidas.
Caminhei com a precisão, a leveza e a poesia do andar de bailarina, carregando o pequeno livro nas pequenas mãos. Elas que agora eram grandes o suficiente para apanhar o universo. Eu tinha cinco anos.
*Referência à música "Livros", de Caetano Veloso.
Simplesmente amei e enquanto lia eu também me transportei para o dia em que as palavras também me tocaram!
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